Raquel Tiemi Oguido
Este trabalho analisa as transformações setoriais do emprego no Brasil e em países selecionados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) entre 2014 e 2024, com enfoque na intensidade tecnológica associada à inteligência artificial (IA) e nas implicações de gênero dessas mudanças. O estudo utiliza dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), classificados segundo a ISIC-4, e aplica o método shift-share, em sua formulação clássica e na extensão proposta por Esteban-Marquillas, permitindo decompor as variações do emprego em efeitos agregado, estrutural, competitivo e alocativo. Os resultados mostram que o emprego total apresentou crescimento no período analisado, com expansão mais intensa da participação feminina no mercado de trabalho em comparação ao emprego masculino. Observou-se que os setores classificados como de alta intensidade em IA, especialmente Informação e comunicação, Atividades financeiras e de seguros, Atividades profissionais, científicas e técnicas e Educação, registraram desempenho superior em termos de geração e participação do emprego, sobretudo nas economias avançadas da OCDE. Em contrapartida, setores de menor intensidade tecnológica, como Agricultura e Indústrias extrativas apresentaram perda relativa de participação ou crescimento mais limitado. A decomposição shift-share revelou que, nos países desenvolvidos, o crescimento do emprego esteve associado principalmente a efeitos estruturais positivos e a vantagens competitivas especializadas em setores intensivos em conhecimento e tecnologia. Já no Brasil, verificou-se maior dependência de setores de serviços tradicionais e de menor produtividade, refletindo limitações estruturais relacionadas à baixa complexidade produtiva e à menor difusão tecnológica. Em relação às diferenças de gênero, identificou-se que a expansão do emprego feminino se concentrou principalmente em setores de serviços, como Saúde, Educação e Atividades administrativas, enquanto os homens permaneceram predominantes em setores como Construção, Transporte e Indústria. Embora tenha ocorrido avanço na participação feminina, os resultados indicam maior exposição das mulheres a ocupações potencialmente automatizáveis. Conclui-se que a expansão de setores intensivos em IA não implicou, necessariamente, redução do emprego geral, mas esteve associada a mudanças na composição setorial e ocupacional do mercado de trabalho. Os achados reforçam que os efeitos da transformação digital dependem da estrutura produtiva, da capacidade de inovação e das condições de qualificação da força de trabalho.

