Fragmentos da obra
"Ele tinha um único terno. Azul escuro, bem cortado, impecável, se fosse 40 anos atrás, ele estaria na moda. Saiu com o seu passo ligeiro, evitando pisar nas partes pretas do mosaico de pedra portuguesa, o que tornava o seu caminhar oscilante. Passou pela banca de revista e comprou um jornal popular. Sentou-se mais adiante no banco da praça sob a sombra da árvore. Reparou nas bitucas de cigarro esmagada na calçada, elas formavam um desenho junto com as flores de ipê amarelo. Com calma, folheou as páginas, sabia o que procurava. Deteve o seu olhar nas letras em caixa alta, leu atentamente a notícia, saboreando as palavras. De todas as reportagens que saíram sobre o ocorrido, ele gostava especialmente da crônica daquele jornalista. Conciso, direto, mas muito, muito perspicaz. Rasgou a folha com cuidado e jogou o resto na lixeira.
Sentia-se leve, percebeu até que o céu estava azul, coisa rara naquela cidade de pessoas com o coração de pedra e olhares vazios. Fazia muito tempo que ele não olhava para cima. Parou num botequim e pediu um café puro. Ignorou o copo ensebado e apreciou o líquido fumegante sem pressa. Ele preferia uma boa taça de vinho tinto para comemorar, mas sua educação não lhe permitia álcool antes do meio-dia, isso era para os homens deselegantes e fracos, e ele era um perfeito cavalheiro. Olhou no relógio. Oito horas. Em trinta anos nunca tinha chegado atrasado no escritório, hoje seria a primeira vez. Uma semana, uma semana e sua vida estava fora de controle. Justo ele que não gostava de mudanças nem improvisos. Sentava-se sempre na mesma mesa, do mesmo restaurante. Sempre o mesmo caminho entre a casa e o trabalho. Ele conhecia todas as pedras, cada buraco, cada rachadura nas paredes, só não sabia do que era capaz de fazer. Agora ele tinha uma ideia do que podia fazer, e tinha medo disso. Medo? Seria essa a palavra?"
O Segredo
